sábado, 7 de julho de 2012

Bright Star * John Keats



"Bright Star"

"Bright star, would I were stedfast as thou art –
Not in lone splendour hung aloft the night
And watching, with eternal lids apart,
Like nature's patient, sleepless Eremite,
The moving waters at their priestlike task
Of pure ablution round earth's human shores,
Or gazing on the new soft-fallen mask
Of snow upon the mountains and the moors –
No – yet still stedfast, still unchangeable,
Pillow'd upon my fair love's ripening breast,
To feel for ever its soft fall and swell,
Awake for ever in a sweet unrest,
Still, still to hear her tender-taken breath,
And so live ever-- or else swoon to death."
John Keats (1819)
*
"Estrela Brilhante"
"Estrela brilhante, fosse eu constante como tu –
Não em esplendor solitário suspenso no alto da noite
E contemplando, com as eternas pálpebras entreabertas,
Como natureza paciente, Eremita vigilante,
As águas em movimento na sua missão sagrada
De pura ablução nas margens humanas da terra,
Ou contemplando a suave queda da renovada máscara
De neve sobre as montanhas e as charnecas –
Não – mas, sempre constante, sempre imutável,
Atravessada no maduro peito do meu leal amor,
Para sentir para sempre o seu pulsar
Desperta para sempre num doce desassossego
Porém, quieta para eu escutar a sua terna respiração,
E assim viver para sempre – ou então mergulhar na morte."
(tradução minha - Helena Simões da Costa)

sábado, 16 de abril de 2011

A Felicidade não é um sossego...

 
"Trata-se de passar da esperança da felicidade [que entorpece e faz estagnar] ao amor da vida, ainda que a vida não seja sempre amável. Porque havia de ser? Não é o valor da vida que justifica o amor que nutrimos por ela, mas, pelo contrário, o amor que nutrimos por ela que dá valor à vida. (...) Enquanto a vida aí está, enquanto há pura atenção (e já não espera), não há vazio, pois a vida é por si mesma auto-experiência de si (...). Ser feliz sem esperar quer dizer, entre outras coisas, sem esperar ser sábio. (...) A vida é mais preciosa do que a filosofia, e uma verdadeira felicidade, mesmo imperfeita como é toda a felicidade, vale mais do que uma felicidade ideal, que é apenas um mito ou uma mentira. (...) Deixemos de desejar ardentemente a felicidade. (...) A felicidade não é o fim do caminho, mas o próprio caminho. (...) A felicidade não é um sossego. (...) A felicidade não está no ser nem no ter. Está na acção, no prazer e no amor."
in "A mais bela história da felicidade", A. Comte-Sponville, J. Delumeau, A. Farge, Texto & Grafia, 2009.
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Ver também:
"Ithaca" Poem by Konstantínos Kavafis (29 de Abril de 1863 - 29 de Abril de 1933)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

De que forma podemos nós dar a volta ao destino?


Photo © Helena Simões da Costa 2013

Vamos dar a volta ao destino: filosofando, tocando, pintando, poetando, ensinando e aprendendo, amando,... e vamos também deixá-lo guiar-nos: preferindo, desdenhando...
"«A nossa vida» está alojada, ancorada no instante presente. Mas – o que é a minha vida neste instante? Não é dizer o que estou a dizer; o que eu vivo neste instante não é mover os lábios; isso é mecânico, está fora da minha vida, pertence ao ser cósmico. É, pelo contrário, estar eu a pensar o que vou dizer; neste instante estou a antecipar-me, projecto-me no futuro. Mas para o dizer preciso de empregar certos meios – palavras – e isto proporciona-me o meu passado. O meu futuro, pois, faz-me descobrir o meu passado, para realizar-se. O passado é agora real porque o revivo, e quando encontro no meu passado os meios para realizar o meu futuro é quando descubro o meu presente. E tudo isto acontece num instante; em cada instante a vida dilata-se nas três dimensões do tempo real interior. O futuro repele-me para o passado, este para o presente, daqui vou outra vez para o futuro, que me atira para o passado, e este a outro presente, num eterno girar.
Estamos ancorados no presente cósmico, que é como o solo que os nossos pés pisam, enquanto o corpo e a cabeça se estendem para o porvir. Tinha razão o cardeal Nicolau de Cusa quando na madrugada do Renascimento, dizia: Ita nunc sive praesens complicat tempus. O agora ou presente inclui todo o tempo: o já, o antes e o depois.
Vivemos no presente, no instante actual, mas não existe primariamente para nós, posto que a partir dele, como de um solo, vivemos assim o imediato futuro.
Reparem que de todos os pontos da terra o único de que não podemos aperceber-nos directamente é aquele que em cada caso temos sob os nossos pés.
Antes que vejamos o que nos rodeia somos já um feixe original de desejos, de anseios e de ilusões. Vimos ao mundo, sem dúvida, dotados de uma sistema de preferências e desdéns, mais ou menos coincidentes com o próximo, que cada qual leva dentro de si armado e pronto a disparar a favor de ou contra cada coisa, como uma bateria de simpatias e repulsas. O coração, máquina incansável de preferir e desdenhar, é o suporte da nossa personalidade.
(...) Não desejamos uma coisa por a termos visto antes, mas ao contrário: porque já no nosso fundo preferíamos aquele género de coisas, vamo-las buscando com os nossos sentidos pelo mundo. Dos ruídos que em cada instante nos chegam e materialmente poderíamos ouvir, só ouvimos, na verdade, aqueles a que damos atenção; (...) ao escutar um som que nos interessa não ouvimos energicamente todos os restantes. Todo o ver é um olhar, todo o ouvir é, ao fim e ao cabo, um escutar, todo o viver um incessante, original preferir e desdenhar. (...)
A esta extrema medida e até este ponto é o viver humano constante antecipação e pré-formação do futuro. Somos sempre muito perspicazes para aquelas coisas em que se realizam as qualidades que preferimos, e, pelo contrário, somos cegos para perceber as que restam, (...). O porvir é sempre o capitão, o Doge; presente e pretérito são sempre soldados e ajudantes-de-campo. Vivemos a avançar no nosso futuro, apoiados no presente, enquanto o passado, sempre fiel, vai ao nosso lado, um pouco triste, um pouco inválido, como ao fazer o caminho na noite, a lua, passo a passo, nos acompanha apoiando no nosso ombro a sua pálida amizade.
Numa boa ordem psicológica, pois, o decisivo não é a soma daquilo que fomos, mas do que ansiamos ser: os impulsos, o anseio, a ilusão, o desejo. A nossa vida, quer queiramos quer não, é na sua essência mesma futurismo.
(...) O presente em que se resume e condensa o passado – o passado individual e histórico – é, pois, a porção de fatalidade que intervém na nossa vida (...). Só que essa armadilha não sufoca, deixa uma margem de decisão para a vida e permite sempre que da situação imposta, do destino dêmos uma solução elegante e forjemos para nós uma vida bela. (...) [A vida] está constituída de um lado pela fatalidade, mas de outro pela necessária liberdade de decidirmos frente a ela, (...) e nada a simboliza melhor que a situação do poeta que apoia na fatalidade da rima e do ritmo a elástica liberdade do seu lirismo. Toda a arte implica a aceitação de um freio, de um destino, e como Nietzsche dizia: «O artista é o homem que dança acorrentado». A fatalidade que é o presente não é uma desgraça, mas uma delícia, é a delícia que sente o cinzel ao encontrar a resistência do mármore.
(...) a beleza da vida está precisamente não em que o destino nos seja favorável ou adverso – já que sempre é destino – , mas na gentileza com que o enfrentemos e talhemos da sua matéria fatal um figura nobre."
Ortega y Gasset in "O que é a Filosofia?"

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Rabindranath Tagore



Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
 
Com a cabeça pacientemente inclinada.
A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz

Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.


Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão

Em flores por todos os recantos da minha floresta.


Rabindranath Tagore


"Lisboa" photo by Helena S. Costa

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O Caleidoscópico Pessoa




Tudo, desde ermos astros afastados 
A nós, nos dá o mundo. 
E a tudo, alheios, nos acrescentamos, 
Pensando e interpretando. 
A próxima erva a que não chega basta, 
O que há é o melhor.
 
* *
In Odes de Ricardo Reis






(O retrato de Fernando Pessoa à esquerda por João Luiz Roth)

sexta-feira, 18 de julho de 2008

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Os Espelhos da Filosofia

Pablo Picasso, "Breakfast of a Blind Man", 1903

Os Espelhos da Filosofia

A Filosofia...
Enquanto superfície altamente polida para produzir reflexão regular dos raios luminosos e das imagens dos objectos. É assim que tudo o que é importante começa.
A Filosofia é a luz pela qual se deve guiar qualquer sociedade que se quer polida;
também pode ser uma lâmina de vidro ou cristal, prateada, geralmente na parte posterior, utilizada como reflector de luz ou para observação de imagens;
a Filosofia espelha e enquadra cada um no seu mundo, se assim houver desejo disso;
ascender à Filosofia é ir espelhando os degraus que subimos, por isso
ela está sempre na parte vertical do degrau de uma escada e por isso só da verticalidade pode nascer o verdadeiro filósofo;
ela é também a chapa que remata exteriormente o buraco da fechadura, é o espelho que indica o caminho que faz procurar a chave certa. Só a chave certa abre a porta da Sabedoria. O espelho é a chave;
é também a tábua saliente na face de uma porta, porque tudo ganha relevo com a Filosofia;
é ainda a abertura no tampo superior de certos instrumentos de corda, pela qual se soltam os sons melódicos e vitais do hino da Alegria;
é também a grande maçã e prová-la não é entrar em queda porque o maior pecado é nunca nos olharmos no seu espelho do autoconhecimento;

Mas querem agora que a Filosofia tape pequenos (e grandes) buracos,
quando na verdade a sua especificidade é espelhá-los... é deixar passar o vento;

A Filosofia é o modelo, o exemplar de espelho
que alguns querem fazer em cacos;

A Filosofia não quer eclipsar buracos, mas espelhá-los
aumentando-os, tanto para os que se espelham nela,
como para os que se espelham em si mesmos…
se assustarem com o que vêem;

A Filosofia é um espelho que reflecte tudo, porque é em si
mesma uma obsessão pela transparência,
uma busca incessante da verdade; ver a transparência
e ver à transparência é utópico, mas ver através do espelho é coragem;
a Filosofia é a coragem de querer ver tudo...
espelhados nela temos uma visão espectral e matizada de tudo...

Quase esquecia que a Filosofia é também uma droga, um vício,
mas oposto ao vício de Narciso, este curiosamente morreu a odiar-se,
porque nunca se olhou no espelho da Filosofia; a Filosofia é amor…

Se a Filosofia é especular, ela é no sentido de ver, estudar, reflectir e meditar
tudo à sua volta. A Filosofia espelha vida… por isso o seu espelho é inquebrável…
reflecte o pensamento, espelha a verdade, a clareza e o autoconhecimento…

A Filosofia também tem o dom de ser um mar sereno que reflecte a intranquilidade das estrelas…
A serenidade do sábio que não quer ser sábio… a verdade…

Helena A. Costa
Lisboa, 17 de Fevereiro de 2007